Esse é o meu normal
Ontem estava refletindo sobre como eu sempre me senti deslocada dentro do meu círculo. Sobre como eu sempre fui diferente. Então comecei a pensar em como a arte sempre permeou toda a minha vida.
Desde pequena dançando para espantar os males ou expressar alegria, sempre cantarolando uma língua inventada que eu chamava de inglês, reciclando coisas aqui e ali para criar artefatos para as minhas bonecas, inventando brincadeiras baseadas em histórinhas bem contadas e etc. Tudo o que eu vivi a minha vida toda foi natural para mim, era simplesmente o que era. Até que, conforme eu cresço, percebo que nada disso é muito normal para as pessoas ao redor.
Não é normal para elas se perguntar o porquê das coisas serem do jeito que são, elas apenas aceitam. Não é normal para elas olhar para coisas cotidianas e enxergarem beleza nelas, não é normal para elas se encantarem com um bar simplezinho em uma cidade litorânea, mas para mim é uma janela de beleza no mundo.
Não é normal para elas lerem palavras organizadas em rimas e sentirem o peso de cada uma delas. Não é normal para elas admirar as belezas escondidas (ou nem tão escondidas) na natureza. Não é normal para elas pensar em soluções criativas para as coisas que elas consideram lixo ou inúteis. Não é normal para elas assistir um filme ou uma série e pensar naquilo em paralelo com a própria vida, ou tentar tirar um ensinamento daquilo, não é normal para elas essa urgência de querer entender o que está por trás das coisas.
Não é normal para elas atrelar significado real a todas as coisas.
Não é normal para elas essa necessidade de criar.
Tudo isso e muito mais sempre fez parte de mim, como uma marca de nascença que eu carrego desde o ventre. Essas coisas nunca me deixaram e nunca vão me deixar. Eu literalmente não sei viver sem essas coisas, não me reconheço sem essas peças básicas no meu quebra cabeça. Eu não consigo existir sem fazer essas coisas, eu não sei me imaginar sendo de outro jeito.
Eu sou o que sou.
E já que sou, o jeito é ser, como já dizia Clarice Lispector.
Durante algum tempo, e até hoje as vezes, eu sinto o peso de me sentir deslocada em todos os lugares, sinto por pagar o preço de não me encaixar nos grupos por aí. Mas hoje eu também vejo o lado bom nisso tudo, e eu aprendi a amar isso mais que tudo. Entendi que falar sobre as coisas que me são normais sempre vão ter o peso de não serem totalmente compreendidas, e decidi que tá tudo bem pagar o preço de ser tachada como estranha às vezes, se isso significa que vou continuar sendo quem eu sempre fui (criativamente falando).
Decidi que tá tudo bem se eu não souber fazer contas de matemática, contanto que eu consiga escrever milhões de textos por ano. Tá tudo bem se eu não entender as fórmulas químicas, se eu vou poder criar arte a partir das coisas que me inspiram na vida. Tá tudo bem eu não gostar do mundo de exatas, se eu vou continuar me aprofundando e me especializando em línguas e gramática, e artes e cultura, e tudo que envolve o criar. Tá tudo bem se eu tiver que abrir mão de algumas coisas em prol de fazer aquilo que eu realmente me identifico. Tá tudo bem se a sociedade vai me isolar, e mesmo assim continuar consumindo arte (que eu provavelmente vou produzir).
Tá tudo bem, na minha mente, agora só preciso colocar tudo isso em prática. Porque às vezes eu ainda travo na hora de me posicionar como artista, mas uma hora passa. Assim como na arte, a vida também é cheia de processos.
Por mais que eu ainda não entenda completamente de onde tudo isso veio, eu aceito e tento usar ao máximo. Na verdade, gostaria de usar mais, acho que ainda uso muito pouco desses presentes. Porém, uso cada vez mais.
Esse é o meu normal. E tá tudo bem não ser o seu.
Essa news foi só um desabafo e uma reflexão de madrugada. Até a próxima!




Isso aí Ana. Também me sinto deslocado. Acho que isso é uma questão dos tímidos e introvertidos. E comecei a minha jornada estudando para diminuir isso. Estudei muito comunicação na questão da oratória, influência e persuasão. Depois de um tempo de caminhada, me sinto menos deslocado e consigo me conectar mais. Continue aí os seus processos, respeitando seus limites. Vamos nessa!!
Lindo, Ana! Eu me identifiquei tanto com o que você escreveu (como sempre)! Estou em fase de transição de carreira e isso tudo veio depois de muito descontentamento e de questionamento sobre como as coisas funcionam, sabe? De sentir que eu não estava sendo eu, tentando me moldar para atender uma lógica (neoliberal) que não faz sentido algum para mim.
Desde criança (na adolescência foi pior) me sentia um peixinho fora d'água por me questionar como as coisas funcionam, porque x coisa é estabelecido de determinada forma. Eu nunca aceitei tudo que lhe foi me imposto, sempre recebi muitas críticas e muitos olhares por isso.
Hoje, não há dinheiro no mundo que me faça mudar, pago o preço que for para manter minha autenticidade e bem como você cita Clarice: E já que sou, o jeito é ser.